sexta-feira, 22 de junho de 2012

O Positivismo Romântico de Bovary

"(Bovary, no divã, soluçando)
NEARLY: Emma, se quer que eu a ajude, terá de explicar o que há de errado.
(Sem levantar a cabeça, Madame Bovary assoa o nariz num lencinho bordado.)
NEARLY: Chorar é uma experiência positiva, mas acho que não devíamos passar os próximos cinquenta minutos nisso.
BOVARY: (falando por entre lágrimas) Ele não escreveu, ele não... escreveu.
NEARLY: Quem não escreveu, Emma?
BOVARY: Rodolphe. Ele não escreveu, ele não escreveu. Ele não me ama. Sou uma mulher arruinada, patética, miserável, infantil.
NEARLY: Emma, não fale assim. Eu já lhe disse,você precisa aprender a se amar.
BOVARY: Por que se comprometer a amar alguém é tão estúpido?
NEARLY: Porque você é uma pessoa linda. E é porque você não vê isto que é viciada em homens que infligem dor emocional.
BOVARY: Mas foi tão bom na época.
NEARLY: O que foi?
BOVARY: Estar lá, com ele ao meu lado, fazendo amor comigo, sentindo sua pele junto da minha, passeando pela floresta. Eu me sentia tão real, tão viva, e agora minha vida está em ruínas.
NEARLY: Talvez você se sentisse viva, mas só porque você sabia que não podia durar, esse homem não amava você de verdade. Você odeia seu marido porque ele escuta tudo o que você diz, mas não consegue parar de se apaixonar pelo tipo de homem que demora duas semanas para responder uma carta. Francamente, Emma, sua visão do amor trai evidência de compulsão e masoquismo.
BOVARY: É mesmo? E daí? Não me importo se é uma doença, tudo o que eu quero é beijá-lo de novo, senti-lo me abraçar, aspirar o perfume da sua pele.
NEARLY: Você tem de começar a fazer um esforço para olhar dentro de si, passar por sua infância, então talvez você aprenda que não merece toda essa dor. É somente porque você cresceu numa família disfuncional, na qual suas necessidades emocionais não foram preenchidas, que você está presa a esse padrão.
BOVARY: Meu pai era um fazendeiro simples.
NEARLY: Talvez, mas também não era confiável emocionalmente, de modo que você agora reage a uma necessidade não preenchida, apaixonando-se por um homem que não pode lhe dar o que você realmente quer.
BOVARY: O problema é Charles, não Rodolphe.
NEARLY: Bem, minha cara, vamos ter de continuar na semana que vem. Sua sessão está chegando ao fim.
BOVARY: Ah, Dra. Nearly, eu queria ter dito antes, mas não vou poder lhe pagar essa semana.
NEARLY: Esta é a terceira vez que você me diz esse tipo de coisa.
BOVARY: Me desculpe, mas dinheiro é um problema muito grande no momento, estou muito infeliz, quando dou pra mim gasto tudo em compras. Hoje mesmo eu saí e comprei três vestidos novos, um dedal pintado e um aparelho de chá de porcelana."

* Trecho de "Ensaios de Amor" de Alain de Botton.

Emma Bovary, uma apaixonada incurável

É difícil ver um final feliz para a terapia de Bovary, não é mesmo?! Pois foi dessa mesma forma que me senti durante várias noites sentada no divã do meu analista... A compulsão e o masoquismo misturado a uma descrente forma de amar. Poderia ter sido eu ali.

Mas depois de muito tempo, muitas sessões, muitos drinks e noites em claro, descobri que é possível brincar e divertir-se com as incompatibilidades do amor. Criando assim, uma mistura ótima de paixão com sabedoria, enfrentando a necessidade dos confrontamentos diários e esquecendo a idiotice dos dias comuns.  Essa lição comum demorou mais tempo do que o necessário para ser aprendida. Foi uma lição complexa aprendida a ferro e dor, com fogo e paixão. 

Esse vazio constante que falo com frequência é exatamente isso, apaixonar-me ou simplesmente querer um homem que sei que não será capaz de me dar o que realmente quero. E, assim, devagarinho, a minha frustração ia aumentando dia a dia... E eu sempre acabava pensando que um dia o amor poderia se tornar indolor para todos. Quase uma tragédia romântica. Virei uma incorrigível pessimista durante anos. Procurando uma cura inexistente para dores intratáveis. Uma vez, em momento de desespero, cheguei a fazer votos de ser uma entidade voltada ao ser, estudando as hemácias da sociedade, dedicando-me somente aos momentos de engrandecimento pessoal.

Essas lições e todo o glamour que elas carregaram quando eu escrevi sobre essas noites, se tornaram muito mais relevantes quando finalmente eu aceitei um convite para jantar na semana seguinte, e então comecei a pensar em andar de mãos dadas, fazer carinho no rosto e dar longos abraços apertados. E então vi que finalmente havia começado a me entregar novamente... 

Bisous,

L.

Obs: A terapia de Madame Bovary, mesmo no livro, é fictícia.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Em busca do borogodó perdido

Então,  juntando todas as peças do tabuleiro e os seus trajetos também, eis que chegamos mais uma vez a divina comédia romântica e rotineira.

Entre muitas taças de Bellini e algumas conversas subjetivas no ar, um bom ensaio de amor e uma noite virada em claro, tudo flui. Mas há de se manter o mistério, a envolvência e a santa benevolência de simplesmente resgatar o borogodó perdido. Era dia 12. 

Sim, perdeu-se pelo caminho. Mas tudo que é perdido pode(e deve) ser encontrado novamente. Mesmo que percorra-se o caminho novamente, nunca é tarde para caminhar certo? Certo! Com tanta prosa e poesia a vida romântica e amorosa poderia estar mais ativa e mais lúcida. Mas quem precisa de lucidez quando a taça ainda está cheia? Há de se dar os devidos créditos aos mistérios do acaso e as lamúrias dos mal amados. Porque, eles sim, me trouxeram até aqui. Porque se até Bette Davis com seu humor ácido conseguia se divertir com alguns drinks, eu também consigo...

Aquele plus que chamamos de toque ou sensualidade, atração ímpar que te faz pedir outro drink quando já é hora de partir e, claro o silêncio que corrompe a cada gole bebido alimentando cada vez mais a indizível atmosfera de sensualidade no ar. Um drink  no Astor. Arpoador, meu amor!

Quando o desejo, a sedução e o mistério se entrelaçam, aí eu te pergunto meu querido leitor, onde é mesmo que o borogodó se esconde? E que comecem os jogos! To be continued. 



"Freud encucava sobre onde as mulheres colocavam o desejo, o Joaquim quer saber apenas onde elas vão colocar o borogodó. Pois é. A palavra pode parecer antiga ao ser sussurada assim, no ouvido da gata, mas acreditamos que a moça da capa tenha. Aquele umbigo, aquele piercing – não serão estes alguns dos redemoinhos sensuais, onde o borogodó se esconde?" Em busca do borogodó perdido - Joaquim Ferreira dos Santos, 1969, Ed. Objetiva.

Borogodó - Sinônimos:  diferencial   bagunça   encrenca   inimizade ; atrativo pessoal irresistível. De O dicionário informal. A descrição também continha a foto do Javier Bardem...

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Laura - Somebody that I used to know

E, de repente numa outra tarde chuvosa, a história se repete. Sussuros no escuro, beijos entusiasmados e abraços apertados. Uma deliciosa aventura carnal. Mas quase. Sempre há um jeito de filosofar.
Engraçado seria sair de lá com a consciência tranquila e peito aberto. Proveitoso seria admirar mais uma noite caliente e de puro prazer. Mas só pro meu bel prazer resolvi blasfemar.
Voltei sozinha pensativa. Chovia. Então isso era um grande consolo para ficar vagando um pouco pelas ruas enquanto acendia um último cigarro. A mente pairava em outro lugar. Quando deixou de ser divertido e começou a ser sério?

Houve uma época em que tudo era possível. As possibilidades eram mais fartas. Nunca me apaixonei por inteiro apesar das inúmeras oportunidades. Pensei que nunca acabaria. Mas como tudo tem um tempo e uma era nunca dura mais do que o necessário esse tempo se foi. E doeu. Doeu pensar que não poderia mais ter os devaneios de menina, que não poderia mais ter a inocência imaculada de um sorriso qualquer. Agora é tarde. Mas talvez não tarde ainda.

A única perspectiva que pensei até então foi em como mudei os meus próprios conceitos de sexo casual. Quando eu digo que os jogadores jogam o jogo é porque eles devem estar dispostos a jogar. Eu sempre estou, mas é sempre difícil sair de campo. Antes, algo tão trivial e comum, hoje, uma dificuldade imensa em dar aqueles primeiros passos. Porém engana-se quem acha que olho pra trás, não é mesmo o meu melhor ângulo e uma vez encerrado, determinado está.

Mas então, entre devaneios e emoções, grandes pensamentos e atitudes quaisquer, vou caminhando mais uma vez. Com o brilho sombrio de quem caminha no escuro e o pensamento firme de viver plenamente, lembrando dos dias em que a colheita era mais farta.

E agora eu me dei conta de que Laura nunca se foi. Ela está apenas adormecida e observando, esperando à espreita por uma grande chance de se revelar. Just like uma gata em teto de zinco quente...



Bisous!

L