NEARLY: Emma, se quer que eu a ajude, terá de explicar o que há de errado.
(Sem levantar a cabeça, Madame Bovary assoa o nariz num lencinho bordado.)
NEARLY: Chorar é uma experiência positiva, mas acho que não devíamos passar os próximos cinquenta minutos nisso.
BOVARY: (falando por entre lágrimas) Ele não escreveu, ele não... escreveu.
NEARLY: Quem não escreveu, Emma?
BOVARY: Rodolphe. Ele não escreveu, ele não escreveu. Ele não me ama. Sou uma mulher arruinada, patética, miserável, infantil.
NEARLY: Emma, não fale assim. Eu já lhe disse,você precisa aprender a se amar.
BOVARY: Por que se comprometer a amar alguém é tão estúpido?
NEARLY: Porque você é uma pessoa linda. E é porque você não vê isto que é viciada em homens que infligem dor emocional.
BOVARY: Mas foi tão bom na época.
NEARLY: O que foi?
BOVARY: Estar lá, com ele ao meu lado, fazendo amor comigo, sentindo sua pele junto da minha, passeando pela floresta. Eu me sentia tão real, tão viva, e agora minha vida está em ruínas.
NEARLY: Talvez você se sentisse viva, mas só porque você sabia que não podia durar, esse homem não amava você de verdade. Você odeia seu marido porque ele escuta tudo o que você diz, mas não consegue parar de se apaixonar pelo tipo de homem que demora duas semanas para responder uma carta. Francamente, Emma, sua visão do amor trai evidência de compulsão e masoquismo.
BOVARY: É mesmo? E daí? Não me importo se é uma doença, tudo o que eu quero é beijá-lo de novo, senti-lo me abraçar, aspirar o perfume da sua pele.
NEARLY: Você tem de começar a fazer um esforço para olhar dentro de si, passar por sua infância, então talvez você aprenda que não merece toda essa dor. É somente porque você cresceu numa família disfuncional, na qual suas necessidades emocionais não foram preenchidas, que você está presa a esse padrão.
BOVARY: Meu pai era um fazendeiro simples.
NEARLY: Talvez, mas também não era confiável emocionalmente, de modo que você agora reage a uma necessidade não preenchida, apaixonando-se por um homem que não pode lhe dar o que você realmente quer.
BOVARY: O problema é Charles, não Rodolphe.
NEARLY: Bem, minha cara, vamos ter de continuar na semana que vem. Sua sessão está chegando ao fim.
BOVARY: Ah, Dra. Nearly, eu queria ter dito antes, mas não vou poder lhe pagar essa semana.
NEARLY: Esta é a terceira vez que você me diz esse tipo de coisa.
BOVARY: Me desculpe, mas dinheiro é um problema muito grande no momento, estou muito infeliz, quando dou pra mim gasto tudo em compras. Hoje mesmo eu saí e comprei três vestidos novos, um dedal pintado e um aparelho de chá de porcelana."
* Trecho de "Ensaios de Amor" de Alain de Botton.
Emma Bovary, uma apaixonada incurável
É difícil ver um final feliz para a terapia de Bovary, não é mesmo?! Pois foi dessa mesma forma que me senti durante várias noites sentada no divã do meu analista... A compulsão e o masoquismo misturado a uma descrente forma de amar. Poderia ter sido eu ali.
Mas depois de muito tempo, muitas sessões, muitos drinks e noites em claro, descobri que é possível brincar e divertir-se com as incompatibilidades do amor. Criando assim, uma mistura ótima de paixão com sabedoria, enfrentando a necessidade dos confrontamentos diários e esquecendo a idiotice dos dias comuns. Essa lição comum demorou mais tempo do que o necessário para ser aprendida. Foi uma lição complexa aprendida a ferro e dor, com fogo e paixão.
Esse vazio constante que falo com frequência é exatamente isso, apaixonar-me ou simplesmente querer um homem que sei que não será capaz de me dar o que realmente quero. E, assim, devagarinho, a minha frustração ia aumentando dia a dia... E eu sempre acabava pensando que um dia o amor poderia se tornar indolor para todos. Quase uma tragédia romântica. Virei uma incorrigível pessimista durante anos. Procurando uma cura inexistente para dores intratáveis. Uma vez, em momento de desespero, cheguei a fazer votos de ser uma entidade voltada ao ser, estudando as hemácias da sociedade, dedicando-me somente aos momentos de engrandecimento pessoal.
Essas lições e todo o glamour que elas carregaram quando eu escrevi sobre essas noites, se tornaram muito mais relevantes quando finalmente eu aceitei um convite para jantar na semana seguinte, e então comecei a pensar em andar de mãos dadas, fazer carinho no rosto e dar longos abraços apertados. E então vi que finalmente havia começado a me entregar novamente...
Bisous,
L.
Obs: A terapia de Madame Bovary, mesmo no livro, é fictícia.

